quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Dilma na balança: faxina, oposição e mídia

A corrupção na política é tão antiga que precisaria de Carbono 14 para datar seu início. Na Roma Antiga já havia discursos zelando pela lisura na administração dos bens públicos e denunciando corruptos. A presidenta Dilma adotou uma postura - louvável, por sinal - contrária à corrupção, o que tem levado a chefe do Executivo a dispensar todos que apresentam qualquer resquício de possibilidade de má administração do dinheiro público. E, assim, Dilma já demitiu os Ministros Antônio Palocci (Casa Civil) e Alfredo Nascimento (Transporte) com sua trupe, e outros integrantes da base aliada como Oscar Jucá da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Além disso, não impediu a saída de Wagner Rossi do Ministério da Agricultura, após escândalo recente. Se tais denúncias são verdadeiras ou não, talvez nunca saibamos - pois a mídia, via de regra, só lança as denúncias mas nunca apresenta a conclusão dos casos - mas representaram um ponto de diferenciação em relação ao governo Lula, muito mais conciliador.

Todos que conheceram Dilma antes das eleições sempre dizem que ela é técnica e não política. Sua vocação não está na negociação, conciliação e tolerância característicos da política, mas no zelo pela administração, na busca de resultados e cobrança de serviço digno. Ao menos, é o que tem parecido. Se olharmos para nossa história recente, outros governos usaram o combate à corrupção como mote de campanha mas, não tiveram muito êxito na prática. Jânio Quadros tinha no seu jingle o famoso "varre, varre vassourinha, vai varrendo a corrupção". Todavia, seu governo foi tão rápido e confuso que nem deu tempo de cumprir a promessa de campanha. Outro que fez campanha contra os marajás da política brasileira e se elegeu foi Fernando Collor. Bom, sobre ele não preciso falar mais nada. Dilma, por sua vez, não usou a "faxina" na sua campanha, mas o tem feito na prática. Ponto pra ela.

A "faxina" da presidenta tem agradado até mesmo a oposição, que tem ficado sem assunto para bater no governo. E até mesmo a oposição tem adotado postura favorável ao governo. Exemplo disso é o ex-presidente do PSDB Fernando Henrique Cardoso que, nos últimos dias, elogiou as atitudes da presidenta e pediu a seu partido que se posicione a seu lado contra a corrupção - Alckmin e Aécio Neves já haviam elogiado seu desempenho em outras datas. Acabou esvaziando qualquer discurso que ainda pudesse ser propagado pelo partido. Na prática, apenas PSDB e DEM não estão com o governo - além de outros partidos com representação menor e os partidos de esquerda mais radical. A coalizão que levou Dilma ao poder é conflitante em sua formação mas tem garantido à presidenta aprovar, com relativa facilidade, seus projetos na Câmara e no Senado. Aqui pesa o fato de Dilma ser mais técnica que política. É difícil agradar a toda a base aliada, um Frankstein que uniu partidos de "esquerda" (PCdoB, PSB, PT), partidos que não lembram mais o que já foram (PMDB), partidos que apoiaram a ditadura e desde lá não sabem bem quem são (PP) e partidos que já nascem sem saber o que são e para quê servem (PSD de Kassab). O PR já pulou fora pois sentiu-se desprestigiado. Agora, como dar prestígio equânime a uma gama de partidos como essa? E, com essa recaída da oposição para o lado da presidenta, quem vai restar para fazer oposição até a eleição de 2014? Mais um ponto para Dilma.
E o quarto poder, a mídia, também largou as armas pesadas que usava contra Lula e tem usado de calibres bem mais moderados para atingir Dilma. Para explicar essa mudança, indico dois fatores: a mudança de atitude do governo com relação à mídia e o fortalecimento de um discurso que separa Lula de Dilma visando as próximas eleições presidenciais. Vou explicar melhor. Quando assumiu em 2002, Lula enfrentou muitas críticas da mídia, chorou no velório do Roberto Marinho, ficou todo amiguinho da Globo, mas não adiantou. A mídia posicionou-se contra seu governo do início ao fim e ele, partiu para o ataque, criticou a mídia em quase todas as suas aparições públicas. Dilma, no entanto, ao vencer as eleições deu sua primeira entrevista à Record e não à Globo e, perguntada sobre sua posição em relação às críticas da mídia, respondeu preferir o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras - da qual foi vítima. Enquanto Lula criticava qualquer denúncia da mídia, Dilma dá ouvidos a elas e demite quem está no centro dos escândalos. Por outro lado, a mídia tem moldado suas críticas à necessidade de preparar as eleições de 2014. Dilma é, potencialmente, uma candidata mais fraca que Lula. A intenção da mídia é: desvincular a imagem do Lula a de Dilma, mostrando um rompimento do governo dela ao de seu antecessor e indicando que o governo atual é melhor. Por quê isso? Para enfraquecer a candidatura de Lula e levar o PT a indicar Dilma para o próximo pleito. Como candidata mais fraca, os "candidatos da mídia" terão mais chance de vitória, podendo levar a uma derrota do PT. Ué, mas a mídia tem candidato? Lógico que sim. Embora se diga neutra, a mídia brasileira sempre fez campanha - vide o tempo gasto no Jornal Nacional com o caso da perigosa bolinha que atingiu a careca do Serra nas vésperas da eleição passada.
É esperar para ver como o governo Dilma vai sustentar sua relação com os aliados e com a mídia até o final de seu governo o qual, não é demais lembrar, está só começando...

Um comentário:

  1. Amigo, foi lançado um documento que divulga as 80 ações do governo FHC que mudaram o Brasil:
    http://fhcsemeando.blogspot.com/p/80-medidas-estruturantes-do-governo-fhc.html
    Fica como sugestão de post, vale a pena conferir!
    Abraços!

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